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Curitiba está encolhendo os apartamentos. E quem entende a cidade está feliz em pagar mais por menos metro

Os apartamentos de Curitiba estão menores e mais caros por metro quadrado. Vou te contar o que a Selic, o custo de construir e o novo morador têm a ver com isso, e por que o investidor que lê a cidade já se posicionou.

Edifícios residenciais em Curitiba representando apartamentos compactos, valorização do metro quadrado e investimento imobiliário.

Deixa eu te contar uma coisa que vejo acontecer todo santo dia aqui em Curitiba.

Eu vivo o mercado imobiliário desta cidade por dentro. Não de fora, lendo notícia. De dentro, vendo o dinheiro se mexer. E tem um movimento rolando que quase ninguém senta para explicar direito para quem investe. Não é papo de plantão animado, não é achismo. Está nos números. Senta aqui que eu te mostro.

O paradoxo que parece loucura (mas não é)

Imagina que você vai pagar hoje o mesmo valor de cinco anos atrás, às vezes até um pouco mais, e leva para casa um apartamento com 20%, 30% menos de área. Na primeira olhada, parece um péssimo negócio, né?

Pense assim. É como aquele restaurante disputado da cidade, onde a mesa é menor, fica tudo mais apertado, e ainda assim tem fila na porta. Por quê? Porque o que as pessoas estão comprando não é o tamanho da mesa. É estar ali. É exatamente isso que está acontecendo no mercado de Curitiba, e os investidores que entendem a cidade estão fazendo fila para entrar nessa lógica.

Olha os números. Os studios de Curitiba valorizaram, em média, 20,4% ao ano entre janeiro de 2022 e janeiro de 2024. O metro quadrado pulou de R$ 8.760 para R$ 12.700, segundo um levantamento da construtora Pride com dados da plataforma Órulo, divulgado pelo Bem Paraná. Em bairros como o Batel, a alta chegou a 36,3% em um único ano.

Menos espaço. Mais caro por metro. E mesmo assim a fila só cresce.

Eu não enxergo isso como curiosidade de mercado. Enxergo como recado. E por trás dele tem três forças moldando Curitiba ao mesmo tempo: o custo de construir, a mudança no jeito que as pessoas querem morar e, talvez a mais subestimada de todas, o efeito da Selic sobre cada decisão de quem tem dinheiro para investir.

Os números que explicam o momento

Curitiba liberou quase 16 mil unidades para construção e mais de 1,2 milhão de metros quadrados em 2025. Parece um mercado forte, e é. Mas o detalhe que importa está na média: nunca os apartamentos foram tão pequenos. A área média dos lançamentos é a menor da série histórica, segundo dados de mercado reunidos pelo portal Portas. Os compactos já são cerca de 70% de tudo que se lança na cidade.

E aqui vai um sinal importante de que isso não é moda passageira de Curitiba. No Brasil inteiro, 41,1% dos lançamentos no radar das incorporadoras são unidades de até 40 metros quadrados, segundo uma pesquisa da Housi noticiada pelo Seu Dinheiro. Em São Paulo, que é a referência do país, 76% dos lançamentos de 2024 tinham até 45 metros quadrados, a maior fatia já registrada, segundo pesquisa divulgada pela CNN Brasil.

Curitiba está no mesmo trilho, puxada por um comprador que mudou. Hoje é o jovem profissional, o nômade digital, o estudante, o investidor de primeira viagem. Gente que quer ticket acessível e facilidade de vender ou alugar depois, não metro quadrado para varrer no fim de semana.

Três forças empurrando o imóvel para baixo no tamanho e para cima no preço

Primeira força: construir nunca custou tão caro

O custo de obra subiu e continua alto. Tem um índice da FGV, o INCC, que mede justamente quanto custa construir. Ele fechou 2025 acumulando 6,10% em doze meses, depois de bater 7,52% em abril, bem acima da inflação que sentimos no supermercado.

Quando o material e a mão de obra encarecem, a incorporadora fica com duas saídas. Ou sobe o preço final do apartamento, ou diminui o tamanho para o valor caber no bolso de quem compra. Pense num pão francês: quando o trigo dispara, ou a padaria cobra mais, ou o pãozinho vem menorzinho. No imóvel funciona igual.

Agora junta isso com o terreno, que em regiões boas de Curitiba segue valorizando acima da inflação. A conta empurra todo mundo para o compacto. Entregar um studio bem localizado rende mais, por metro de terreno, do que entregar um apartamento grande no mesmo endereço.

Segunda força: o novo morador não quer cuidar de 80 metros quadrados

Quem compra o primeiro apartamento hoje cresceu com Uber, iFood e Airbnb. É uma geração acostumada a pagar pelo uso, e não pela posse. Para essa turma, localização vale mais que metragem.

E as incorporadoras sacaram isso na hora. Elas compensam a unidade menor com uma área comum de clube: academia completa, rooftop, espaço de trabalho compartilhado, lugar para o pet, piscina aquecida. O apartamento encolheu, mas o prédio inteiro virou a extensão da sua casa. É como morar num espaço enxuto e ter, no andar de baixo, a sua segunda sala, o seu escritório e a sua academia. Você abre mão do tamanho da unidade e ganha o tamanho do empreendimento.

Terceira força: a conta do investidor, ticket menor e mais liquidez

Para quem investe, o compacto tem uma matemática simples e bonita. Um imóvel de R$ 300 mil é mais fácil de comprar, de alugar e de revender do que um de R$ 600 mil. Fica menos tempo vazio, atrai mais tipos de inquilino (estudante, executivo de passagem, hóspede de temporada) e a rotatividade ainda permite reajustar o aluguel com mais frequência.

Não é por acaso que os studios são hoje os imóveis preferidos para investir em Curitiba. E a pesquisa da Housi mostra o mesmo do lado de quem constrói: 69,2% das incorporadoras já desenvolvem produtos pensados para gerar renda de aluguel.

O detalhe que separa quem lê o jogo de quem só reage

Agora chegou a parte que pouca gente conecta. Presta atenção nessa, porque é ela que faz toda a diferença.

Em maio de 2025, a Selic chegou a 14,75% ao ano, o maior patamar em quase 20 anos, desde 2006, como noticiou a CNN Brasil. Esse número sozinho não diz muita coisa. Mas coloca ele do lado do quanto rende um imóvel alugado, que gira em torno de 6% ao ano bruto, segundo o Índice FipeZap (e chega perto de 6,7% nos imóveis de um dormitório). Aí o contraste salta aos olhos.

Deixa eu colocar de um jeito bem direto. Imagine que você tem dois trabalhos na mesa. Um deles te paga perto de 14% ao ano, não te dá trabalho nenhum, e você saca o dinheiro quando quiser, que é a renda fixa puxada pela Selic. O outro te paga 6%, e ainda te liga num domingo de manhã por causa de um vazamento, do IPTU, do inquilino que atrasou. Por que alguém escolheria o segundo?

A resposta não é “ninguém compra mais imóvel”. A resposta é mais interessante: esse cenário desloca o dinheiro dentro do mercado. E ele faz isso em três movimentos.

Movimento 1: quem ia comprar para morar, segura a decisão.

Com crédito caro, muita gente que compraria acaba indo para o aluguel. O Brasil saltou de 12,3 milhões de domicílios alugados em 2016 para 17,8 milhões em 2024, segundo a PNAD do IBGE divulgada pela Agência Brasil. A fatia de lares alugados subiu de 18,4% para 23%. Do lado do crédito, o financiamento com dinheiro da poupança caiu cerca de 13% em valor e 14% em número de imóveis em 2025, viabilizando 458 mil unidades, segundo a Abecip.

Movimento 2: o aluguel sobe.

Mais gente querendo alugar, e a oferta sem crescer no mesmo ritmo. Resultado: o aluguel residencial fechou 2025 subindo 9,44% no índice FipeZap nacional, mais que o dobro da inflação do período, que foi de 4,26%. Em Curitiba, o aluguel subiu por volta de 8,6% em doze meses.

Movimento 3: quem ainda compra, escolhe o compacto.

Com a Selic na casa dos 14% e a renda fixa pagando bem, o investidor que decide entrar no tijolo não vai arriscar R$ 800 mil num apartamento grande. Ele prefere dois studios de R$ 300 mil cada. É o velho conselho de não colocar todos os ovos na mesma cesta: ele dilui o risco, reduz a exposição e ainda fica com dois aluguéis pingando todo mês em vez de um só.

O que as incorporadoras entenderam antes de todo mundo

As construtoras que dominam Curitiba hoje não estão “entregando menos”. Elas estão reposicionando o produto para um novo momento da economia e do comportamento das pessoas. O compacto bem localizado junta três vantagens que o mercado passou a valorizar mais do que tamanho: o ticket acessível, que alcança muito mais gente; a liquidez alta, que vende e aluga rápido perto de universidades, polos de trabalho e transporte; e a eficiência, com manutenção e condomínio mais baratos.

E Curitiba é um terreno especialmente fértil para esse modelo, porque tem peso em tecnologia, serviços e ensino superior. Universidades, startups e empresas criam uma demanda constante por moradia compacta e bem localizada. Ou seja, exatamente o produto que está saindo do chão.

O que esperar daqui para frente

E é aqui que a história fica ainda mais interessante. Aquela virada nos juros que o mercado esperava para mais tarde já começou a acontecer. A Selic recuou para 14,25% ao ano em junho de 2026, no terceiro corte seguido, segundo a Agência Brasil. E o mercado, no Boletim Focus, já projeta a taxa perto de 13,75% no fim de 2026, como mostrou o InfoMoney.

Por que isso importa tanto? Porque dinheiro se comporta um pouco como água. Ele sempre escorre para onde rende mais. Enquanto a renda fixa é o ponto mais alto do terreno, o dinheiro fica parado lá. Quando a Selic cai, esse terreno se inclina, e parte daquele capital começa a escorrer para outras opções. Historicamente, boa parte vai para imóveis e fundos imobiliários. Isso tende a esquentar ainda mais os preços, principalmente dos compactos, que já estão com estoque curto nas melhores localizações.

Mas tem um ponto que não volta atrás. O apartamento compacto deixou de ser tendência e virou produto consolidado. As forças que sustentam ele, como mobilidade urbana, trabalho híbrido e a moradia vista como serviço, são estruturais, não passageiras. Quem comprou studio entre 2022 e 2024 colheu valorização acima de 20% ao ano. Quem entra agora ainda pega uma boa janela. Só que janela, você sabe, não fica aberta para sempre.

Conclusão: o metro quadrado virou luxo

A pergunta que Curitiba está respondendo na prática já não é “quantos quartos?”. É “em qual endereço?”.

E não é à toa. Curitiba foi a capital brasileira que mais valorizou imóveis em 2024, com alta de 18%, e seguiu acelerando em 2025, com valorização de 9,08% no ano pelo FipeZap, de novo bem acima da inflação. O mercado simplesmente reorganizou o que tem mais valor: localização e liquidez passaram na frente da metragem.

Eu não te vendo apartamento. Eu te mostro para onde Curitiba está indo, e por que ler esse movimento agora vale mais do que qualquer planta bonita. Pagar mais por menos metro, nesse contexto, não é prejuízo. É estratégia. E estratégia, no fim das contas, é só conseguir enxergar antes o que vai ficar óbvio para todo mundo depois.

Foto de Keliston KovalskiLinkedin
Autor(a) da publicação: Keliston KovalskiCoordenador Comercial da Blue Empreendimentos

Estrategista e diretor comercial do mercado imobiliário, com forte atuação em Curitiba e região metropolitana.

Fontes

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